Em maio de 2019, a Organização Mundial da Saúde atualizou oficialmente a definição de burnout. Foi um marco importante, que mudou a forma como profissionais de saúde, empresas e o público em geral entendem essa condição. Mas o que essa definição realmente diz, e o que ela não diz, ainda costuma ser mal compreendido.
A definição oficial da OMS
Segundo o texto oficial publicado pela Organização Mundial da Saúde em maio de 2019, o burnout está incluído em um capítulo que reúne motivos pelos quais as pessoas procuram atendimento de saúde, mas que não são classificados como doenças propriamente ditas. É importante entender essa diferença: a OMS classifica o burnout como um fenômeno ligado ao trabalho, e não como uma doença em si.
A definição diz o seguinte: burnout é uma síndrome que resulta do estresse crônico no local de trabalho, quando esse estresse não foi administrado com sucesso. A OMS explica que o burnout tem três características principais:
- Sensação de exaustão ou esgotamento de energia.
- Distanciamento do trabalho, com sentimentos de negativismo ou cinismo em relação a ele.
- Sensação de que o desempenho profissional caiu.
Um detalhe que costuma passar despercebido: a própria OMS afirma que o termo burnout deve ser usado especificamente para descrever o que acontece no contexto do trabalho, e não para descrever esgotamento em outras áreas da vida, como cuidar dos filhos ou de familiares. Isso não significa que esse tipo de esgotamento não seja real ou importante. Significa apenas que a OMS fez uma escolha conceitual específica sobre onde encaixar o termo burnout.
Por que isso importa na prática
Classificar o burnout como algo ligado ao ambiente de trabalho, e não como uma doença individual, tem consequências práticas. A médica Christine Sinsky, vice-presidente de satisfação profissional da Associação Médica Americana, explicou em entrevista que o ponto central é entender o burnout como um desequilíbrio: quando a carga de trabalho é maior do que os recursos disponíveis para dar conta dela de forma significativa. Essa visão tira parte do peso de cima da pessoa. O burnout não é apenas uma falha pessoal de resistência. Muitas vezes, ele é o resultado de um ambiente de trabalho que ultrapassou a capacidade de adaptação de quem está nele.
Uma revisão publicada em 2024 na revista European Psychiatry, feita por pesquisadores espanhóis, discute o que essa reclassificação da OMS significa na prática clínica. Os autores destacam como é importante que médicos e psicólogos entendam bem os limites do conceito, já que o burnout costuma se sobrepor a outros quadros, como depressão e ansiedade, sem ser exatamente a mesma coisa.
Como o burnout é medido pela ciência
O instrumento mais usado nas pesquisas científicas sobre burnout é o Maslach Burnout Inventory, criado pela psicóloga Christina Maslach e seus colegas de pesquisa, ainda nos anos 1980. Ele avalia exatamente as três dimensões que a OMS incorporou na sua definição: a exaustão emocional, o distanciamento em relação ao trabalho e a sensação de baixo desempenho. Isso mostra como a definição oficial da OMS se apoiou em décadas de pesquisa feita antes dela, iniciada ainda nos anos 1970.
Burnout, depressão e ansiedade: qual a diferença
Um dos maiores desafios é diferenciar burnout de depressão, já que os sintomas se parecem bastante: cansaço, falta de motivação, dificuldade de concentração. A ciência reconhece essa semelhança, mas também aponta diferenças importantes. O burnout está ligado especificamente ao trabalho e costuma melhorar, ao menos em parte, quando a pessoa se afasta desse ambiente. A depressão, por outro lado, costuma continuar presente mesmo fora do contexto de trabalho, afetando todas as áreas da vida de forma mais ampla. Ainda assim, um burnout que não é tratado por muito tempo é considerado um fator de risco para o desenvolvimento de depressão. As duas condições podem, sim, existir juntas.
Por que o burnout acontece: o que dizem as demandas e os recursos do trabalho
Uma das teorias mais usadas para entender as causas do burnout é chamada de Modelo de Demandas e Recursos do Trabalho, criada pelos pesquisadores Evangelia Demerouti e Arnold Bakker no início dos anos 2000. A ideia é simples de entender: todo trabalho tem demandas, como sobrecarga, pressão de tempo e exigências emocionais, e também tem recursos, como autonomia, apoio dos colegas e clareza sobre o que se espera da pessoa.
Segundo esse modelo, o burnout se desenvolve principalmente quando as demandas são altas e os recursos disponíveis não são suficientes para lidar com elas. Um estudo de Bakker e seus colegas, feito com mais de mil funcionários de uma universidade, descobriu que sobrecarga de trabalho, exigências emocionais e conflito entre vida pessoal e profissional são fatores de risco consistentes para o burnout. Mas o estudo também mostrou algo esperançoso: o impacto negativo dessas demandas pode ser amenizado quando a pessoa tem mais autonomia, apoio social e uma boa relação com quem lidera a equipe.
Isso tem uma implicação importante para o tratamento. O burnout raramente se resolve apenas com esforço individual, se as condições do ambiente de trabalho continuarem exatamente as mesmas. Por isso, a pesquisa mais recente destaca a importância de trabalhar tanto os recursos pessoais quanto, sempre que possível, as condições do próprio ambiente.
O que a ciência diz sobre o tratamento do burnout
A pesquisa sobre formas de tratar o burnout cresceu bastante na última década, com foco especial em profissionais de saúde e educação, grupos historicamente mais estudados por apresentarem taxas altas da síndrome.
Uma revisão de vários estudos, publicada em 2024, avaliou terapias cognitivo-comportamentais mais recentes, que incluem componentes de atenção plena, em profissionais de saúde. A partir de mais de cinco mil registros analisados e onze estudos incluídos na análise final, os pesquisadores encontraram reduções importantes na exaustão emocional e no distanciamento em relação ao trabalho. O efeito sobre a sensação de baixo desempenho profissional foi menos claro, o que sugere que essa parte específica do burnout pode precisar de estratégias adicionais, além da terapia individual.
Um estudo feito no Nepal, com 218 professores do ensino médio, testou uma intervenção que combinava TCC e atenção plena ao longo de um mês. Os resultados, somados a outras revisões científicas sobre o mesmo tema, mostram de forma consistente que esse tipo de intervenção ajuda a reduzir o estresse no trabalho e o burnout entre educadores.
Sobre o retorno ao trabalho depois de um afastamento, uma revisão de estudos concluiu que a TCC é uma das opções mais promissoras entre os tratamentos disponíveis para pessoas afastadas por muito tempo, já que ajuda a trabalhar os pensamentos e comportamentos que sustentam esse afastamento. Vale dizer que os próprios pesquisadores apontam que os resultados ainda variam entre os diferentes estudos, o que mostra que a ciência sobre esse tema continua avançando.
O que isso significa na prática do acompanhamento psicológico
Com base no que a pesquisa mostra, um acompanhamento de TCC para burnout costuma envolver:
- Identificar os fatores específicos de sobrecarga, que nem sempre são óbvios à primeira vista e frequentemente estão ligados tanto às próprias expectativas da pessoa quanto às exigências externas.
- Trabalhar pensamentos de autoexigência excessiva e a crença de que o próprio valor depende do desempenho no trabalho.
- Construir limites mais claros e sustentáveis em relação à carga de trabalho.
- Desenvolver estratégias para lidar com o estresse, incluindo técnicas de atenção plena quando indicado, já que a pesquisa aponta essa combinação como especialmente útil para a exaustão emocional.
- Apoiar, quando necessário, o processo de retorno gradual ao trabalho depois de um afastamento.
Este conteúdo não substitui uma avaliação profissional. Identificar burnout exige uma avaliação cuidadosa, feita por um profissional, que considere o histórico da pessoa, o contexto de trabalho e a possibilidade de outras condições, como a depressão. A presença de alguns sintomas descritos aqui não é suficiente para concluir, sozinho, que existe burnout.
Importante: os resultados descritos nos estudos citados são médias encontradas em grupos de pesquisa, não garantias individuais. A psicoterapia é um recurso importante no manejo do burnout, mas os resultados variam de pessoa para pessoa e também dependem de mudanças no ambiente de trabalho, que nem sempre estão totalmente sob controle da pessoa.
Perguntas frequentes
Referências científicas
- World Health Organization. "Burn-out an occupational phenomenon: International Classification of Diseases." WHO Departmental News, 28 de maio de 2019.
- WHO. "ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics. QD85 Burn-out." International Classification of Diseases, 11ª revisão.
- Maslach C, Jackson SE. "The measurement of experienced burnout." Journal of Organizational Behavior, 1981;2:99-113.
- Maslach C, Jackson SE, Leiter MP. "Maslach Burnout Inventory Manual" (3ª edição). Consulting Psychologists Press, 1996.
- Demerouti E, Bakker AB, Nachreiner F, Schaufeli WB. "The job demands-resources model of burnout." Journal of Applied Psychology, 2001;86(3):499-512. PMID: 11419809.
- Bakker AB, Demerouti E, Euwema MC. "Job resources buffer the impact of job demands on burnout." Journal of Occupational Health Psychology, 2005;10(2):170-180.
- Pelayo-Terán JM, Gutiérrez-Hervás Z, Vega-García S, et al. "ICD-11 Burnout for the psychiatrist: Meaning of the concept and prevalence of the condition." European Psychiatry, 2024. DOI: 10.1192/j.eurpsy.2024.321.
- "Effects of Third-Wave Cognitive Behavioral Therapy for Healthcare Professionals' Burnout: A Systematic Review and Meta-Analysis." PMC, 2024.
- "Effect of a mindfulness-based cognitive behavior therapy intervention on occupational burnout among school teachers." PMC, estudo randomizado controlado, Nepal.
- "The Effectiveness of Cognitive-Behavioral Therapy in Helping People on Sick Leave to Return to Work: A Systematic Review and Meta-analysis." PMC.