Medo constante de que o parceiro vá embora. Necessidade de confirmação o tempo todo de que está tudo bem. Dificuldade de relaxar dentro de uma relação, mesmo quando nada de ruim está acontecendo. Esse padrão tem um nome na psicologia, e vem sendo estudado desde os anos 1950: o apego ansioso.
De onde vem a teoria do apego
A teoria do apego foi desenvolvida pelo psiquiatra britânico John Bowlby, que observou como bebês criam laços emocionais com quem cuida deles. Nos anos 1970, a psicóloga Mary Ainsworth expandiu esse trabalho com um experimento conhecido como "Situação Estranha", em que bebês eram observados durante pequenas separações e reencontros com o cuidador.
A partir dessas observações, Ainsworth identificou diferentes padrões de apego em crianças: seguro, ansioso e evitativo, com o padrão desorganizado sendo descrito mais tarde por outros pesquisadores. Crianças com apego seguro costumam ficar chateadas quando o cuidador sai, mas se acalmam com facilidade quando ele volta. Já crianças com um padrão mais ansioso, segundo Ainsworth, ficam extremamente angustiadas com a separação e têm mais dificuldade de se acalmar no reencontro, às vezes demonstrando raiva junto com a necessidade de colo.
Como isso chegou aos relacionamentos adultos
Nos anos 1980, pesquisadores começaram a aplicar essas ideias também às relações entre adultos. Os psicólogos Cindy Hazan e Phillip Shaver, em um estudo de 1987, notaram que a forma como os adultos se relacionam em relações amorosas segue padrões muito parecidos com os observados por Ainsworth entre bebês e cuidadores.
Segundo essa linha de pesquisa, pessoas com um padrão mais ansioso de apego tendem a ficar hipervigilantes em relação às emoções e ao comportamento do parceiro, monitorando sinais de possível afastamento ou rejeição. Um estudo mais recente descreve que esse padrão costuma vir de um histórico de cuidado inconsistente na infância, em que as necessidades emocionais da criança nem sempre eram atendidas de forma previsível.
Na vida adulta, isso costuma se traduzir em um medo profundo de rejeição, que influencia diretamente o comportamento dentro dos relacionamentos.
Como o apego ansioso costuma aparecer na prática
- Necessidade frequente de reasseguramento de que o parceiro ainda gosta ou ainda quer estar na relação.
- Monitoramento constante do humor e das reações do outro, tentando antecipar sinais de afastamento.
- Medo intenso de abandono, mesmo sem sinais concretos de que isso vá acontecer.
- Dificuldade de ficar tranquilo quando o parceiro está indisponível ou demora para responder.
- Ciúme ou necessidade de controle, muitas vezes como forma de tentar reduzir a ansiedade.
- Tendência a se envolver rapidamente e de forma intensa em novos relacionamentos.
O apego pode mudar
Uma boa notícia trazida por pesquisas mais recentes sobre o tema: os padrões de apego não são uma sentença definitiva. Pesquisadores descrevem um processo chamado "segurança conquistada", que é justamente o desenvolvimento de um funcionamento mais seguro na vida adulta, mesmo quando a história de apego na infância não foi segura.
Segundo essas pesquisas, relacionamentos estáveis e responsivos, sejam relações amorosas, amizades próximas ou uma boa relação terapêutica, podem ajudar a pessoa a revisar, aos poucos, as expectativas que carrega sobre si mesma e sobre os outros. Um fator associado a essa mudança é a chamada capacidade reflexiva, ou seja, a habilidade de pensar sobre os próprios estados emocionais e os dos outros, em vez de simplesmente reagir a eles.
Este conteúdo tem caráter informativo. Reconhecer um padrão de apego ansioso em si mesmo é um passo importante, mas vale evitar usar rótulos de apego como uma identidade fixa. Eles são tendências que ajudam a entender melhor certos padrões de comportamento, não categorias definitivas que resumem toda a sua forma de se relacionar. Uma compreensão mais profunda da sua própria história só é possível em um processo terapêutico individualizado.
O que a terapia pode trabalhar
Com base no que essa área de pesquisa descreve, um acompanhamento terapêutico pode ajudar a:
- Entender de onde vêm os medos e as reações automáticas dentro dos relacionamentos.
- Desenvolver mais capacidade de tolerar a incerteza normal que existe em qualquer relação, sem que isso gere angústia desproporcional.
- Construir formas mais diretas de comunicar necessidades, em vez de esperar que o outro "adivinhe" ou de testar constantemente o vínculo.
- Fortalecer a sensação de segurança interna, que não depende inteiramente da validação constante do outro.
- Reconhecer, aos poucos, relações e comportamentos que de fato indicam cuidado, em vez de continuar vigiando sinais de ameaça que talvez nem estejam lá.
Importante: a psicoterapia pode contribuir bastante para a compreensão dos próprios padrões de apego e para o desenvolvimento de relações mais seguras, mas os resultados variam de pessoa para pessoa e dependem de diversos fatores, incluindo o tempo de acompanhamento e o contexto de vida de cada um.
Perguntas frequentes
Referências científicas
- Bowlby J. "Attachment and Loss." 1969.
- Ainsworth MDS, Blehar MC, Waters E, Wall S. "Patterns of Attachment: A Psychological Study of the Strange Situation." 1978.
- Hazan C, Shaver P. "Romantic love conceptualized as an attachment process." Journal of Personality and Social Psychology, 1987.
- Bartholomew K, Horowitz LM. "Attachment styles among young adults: a test of a four-category model." Journal of Personality and Social Psychology, 1991.
- Mikulincer M, Shaver PR. "Attachment in Adulthood: Structure, Dynamics, and Change." Guilford Press.
- "Theory and Research on Attachment Processes in Adulthood." Universidade da Califórnia, Davis.